Contexto
No Brasil, a rede social de bairro é exercida de forma improvisada por grupos de WhatsApp e Facebook: fragmentados, sem busca, sem histórico, sem verificação de vizinhança. Os aplicativos brasileiros com proposta parecida concentram atuação nas capitais e não chegam às cidades do interior — e, no levantamento que fiz, nenhum reunia num só produto verificação de vizinhança, diretório de serviços e moderação transparente. O HelpCiti nasceu para preencher essa lacuna: uma rede hiperlocal desenhada desde o zero para a realidade de quem mora fora dos grandes centros.
O problema por trás do problema
Antes de desenhar qualquer tela, investiguei por que as opções existentes não davam conta. O padrão que apareceu não era de funcionalidade, era de geografia: os produtos disponíveis foram pensados para o bairro de uma capital, onde a vizinhança é um recorte pequeno dentro de uma cidade grande. Aplicados a uma cidade de 40 mil habitantes, esse recorte simplesmente não descreve como as pessoas vivem.
Validei a demanda em campo: analisei o "Fala Socorrense", grupo de Facebook com 38 mil membros na cidade piloto (Socorro-SP, ~40 mil habitantes). O achado mais importante não estava na lista de funcionalidades — estava na estrutura: a vizinhança funcional de uma cidade pequena é o município inteiro, não o bairro. Esse único insight redesenhou o modelo geográfico do produto inteiro, da hierarquia de dados ao escopo de visibilidade de cada post.
Da pesquisa ao produto
A pesquisa também revelou o caso de uso âncora: pedir e dar indicação de prestador de serviço (eletricista, diarista, cuidador) era, disparado, o motivo nº1 de as pessoas usarem o grupo. Isso reordenou as prioridades técnicas — o diretório de serviços, inicialmente planejado para uma fase posterior, foi antecipado para o núcleo do produto.
O design de confiança foi construído regra a regra, respondendo ao que falta nos grupos improvisados: verificação progressiva (telefone → CEP → geolocalização, documento nunca exigido), endereço exato do usuário jamais exposto a terceiros, e um pipeline de moderação com IA que registra motivo e regra violada em toda ação, mantém janela de recurso auditável, e trata conteúdo sensível — saúde mental, violência doméstica — com acolhimento em vez de remoção automática.
O pivô: quando o teste de usabilidade contradiz o plano
A primeira versão do produto usava uma home híbrida: um feed cronológico como espinha dorsal, com atalhos de tarefa e módulos de serviços intercalados — um desenho deliberado para equilibrar duas necessidades observadas na pesquisa, resolver uma tarefa e acompanhar a vida do bairro.
O teste de usabilidade com o público real — todas as idades, Android de entrada, letramento digital variado — mostrou outra coisa: o feed como estrutura principal competia com a tarefa em vez de apoiá-la. Usuários chegavam com uma necessidade concreta e o feed virava obstáculo, não atalho.
A resposta foi um pivô de arquitetura de informação, não um ajuste de detalhe: o feed saiu do centro do app mobile e o produto passou a viver em duas abas de tarefa — Meu Negócio (serviços e vagas) e Feira do Rolo (compra, troca e doação). O backend de feed foi mantido vivo na arquitetura, preservando a opção de reintroduzi-lo de forma diferente conforme o produto evolui — mas a interface deixou de assumir que rolar era o comportamento padrão.
Arquitetura e decisões técnicas
O sistema foi construído como monorepo (React Native/Expo, NestJS, PostgreSQL com PostGIS para o modelo geoespacial, Redis/BullMQ para filas), hospedado em nuvem no Brasil — compute e banco na mesma região, para latência baixa e residência de dados alinhada à LGPD. A camada de IA (Claude API) atua na moderação de conteúdo e na personalização de feed/digest, sempre com minimização de dados e decisões auditáveis — nunca uma caixa-preta removendo conteúdo sem explicação.
Todo o processo — da pesquisa de mercado ao roadmap de engenharia — foi documentado e executado em etapas granulares com apoio de IA como par de desenvolvimento, permitindo que um único designer/desenvolvedor sustentasse o ciclo completo de descoberta, design e implementação.
Resultado
O HelpCiti está em produção, com beta ativo na cidade piloto. O projeto reúne, de ponta a ponta, pesquisa de mercado primária, arquitetura de confiança e privacidade por design, e um pivô de produto guiado por evidência — a prova de que o desenho inicial é hipótese, e a disposição de mudá-lo diante do teste é o que separa um produto usável de um bem-intencionado.